19.4.12

#novidade: na londres pré-olímpica acaba de abrir o hotel belgraves, que combina o rigor britânico com a bonomia americana

[O lobby (foto de divulgação)]
E já faltam menos de 100 dias!

[A entrada (foto de divulgação)]

Em contagem decrescente para as Olimpíadas, Londres não tem mãos a medir para dar conta de tanta inauguração. Entre as novidades, os hotéis, como já seria de imaginar e esperar, ocupam um quinhão muito significativo. 

[O Mark's Bar Lounge (foto de divulgação)]

Jason Pomeranc, o hoteleiro que devolveu a Nova Iorque (sobretudo na zona da Baixa) um conceito de luxo mais despojado com a cadeia Thompson, atravessou o atlântico e aterrou com uma unidade novinha em folha que já dá o que falar. 

[O corredor (foto de divulgação)]

Belgraves, assim se chama por ficar no elegante bairro londrino de Belgravia, a dois passos de artérias comerciais como Sloane Square, possui 85 quartos — o que é, convenhamos, um número simpático (nem grande em excesso, nem demasiado pequeno) — e tem como proposta aliar ao rigor da hospitalidade britânica um toque mais descontraído tipicamente norte-americano. 

[Um dos quartos (foto de divulgação)]

Esta aliança é curiosa, tanto que houve por parte da marca Thompson e de Pomeranc o cuidado, provavelmente para não ferir suscetibilidades, de entregar a britânicos áreas-chave do projeto: a arquitetura é da firma EPR, o design de interiores de Tara Bernerd e a chefia de operações foi confiada a Marx Hix (que emprestou o sobrenome ao restaurante). 

[A sala da Penthouse (foto de divulgação)]

Outro pormenor que não foi deixado ao acaso foi a própria vivência do hotel. O lobby mostra, desde logo, ao que o hotel veio, com um tipo de atmosfera que tanto serve o interesse do hóspede como de quem está só de passagem e quer usufruir das áreas comuns como o restaurante, de nova cozinha britânica, ou o bar-biblioteca.

[O Hix Restaurant (foto de divulgação)]

O preço das diárias vai variar conforme a época, claro, mas a título de exemplo posso dizer que, numa pesquisa rápida e sem entrar em pacotes especiais (vale a pena conferir, pois eles sempre compensam), verifiquei um valor médio de €300.

12.4.12

#gente em destaque: as escolhas de carlos braz lopes em nova iorque a pretexto de "o melhor livro de chocolate do mundo" e do bolo com que tudo começou


[Carlos Braz Lopes, o autor de O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo, fotografado para o seu primeiro livro (©ana paula carvalho)]


Talvez não se associe, de imediato, o nome de Carlos Braz Lopes a uma das marcas registadas de maior êxito de Portugal, mas este é o homem que criou e fez de O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo (MBCM) um case study

Depois de deixar os portugueses pelo beicinho, o negócio expandiu-se para o Brasil (onde, entretanto, foi adquirido pela CPQ Brasil S.A. e vai de vento em popa, com lojas em vários pontos do país), e ganhou filiais em Madrid, Nova Iorque e, mais recentemente, pasme-se, em Sydney, na Austrália. 

Além do Galo de Barcelos estilizado, presença obrigatória, as lojas além-fronteiras vendem outros produtos made in Portugal como sanduíches de queijo da serra com marmelada.

[A capa de "O Melhor Livro de Chocolate do Mundo" (foto de divulgação)]

Quem só conhece o empresário de sucesso, dirá que tem olho para o negócio, mas desconhece que atrás da fórmula está um homem que, não sendo cozinheiro, ganhou o respeito e a amizade de inúmeros chefs e figuras da gastronomia portuguesa por ser proprietário da loja Cozinhomania e percursor, numa altura em que o assunto ainda não era moda, dos cursos de cozinha em solo nacional desde 1997.

Há dias, num espaço que lhe é muito caro (o Mercado de Santa Clara, onde era sócio-gerente do restaurante que levava o mesmo nome e que se encontra para trespasse), juntou ao seu currículo um livro.

Numa época em que toda agente escreve livros — e para mais, livros de receitas —, a iniciativa arriscar-se-ia a passar quase despercebida, não fosse ele um homem que gosta de correr riscos e um provocador nato.

[Bolo de Bolacha do Sebastião, uma das receitas do livro (@ana paula carvalho)]

O livro traz como título, nada mais, nada menos, "O Melhor Livro de Chocolate do Mundo" e vem recheado de receitas simples e sem pretensões a ser mais do que realmente são.

Sempre sem fugir ao chocolate, ele rebuscou nas suas memórias de infância, assenhorou-se de receitas de amigos e conhecidos e montou todo um roteiro de guloseimas que acaba por ser também um exercício de afetos.

Com fotografias de Ana Paula Carvalho e food styling de Maria Antónia Linhares, o livro só não traz, como é óbvio, a receita do MBCM. Mas essa, ele não revela nem sob tortura, eu acho.

[Cheesecake de chocolate branco, outra receita do livro (©ana paula carvalho)]

Já das suas viagens, que adora, não faz segredo. Há uns tempos pedi-lhe, a propósito dos 10 anos do fatídico 11 de Setembro, um miniroteiro dos seus endereços de eleição quando está em Nova Iorque. O artigo, que se destinava ao extinto suplemento NS, acabou por não sair. Uma culpa que carrego, embora não sendo minha, e da qual me redimo em parte ao partilhar agora, e aqui, o seu itinerário sugerido. 

[The Standard, o hotel eleito de Braz Lopes na "Grande Maçã" (foto de divulgação)]


Manhattan por Braz Lopes (para lá, claro, da loja do MBCM em 37 Spring St., entre as ruas Mott e Mulberry): 

The Standard: é um hotel fantástico; pela vista dos quartos, e também pelo seu bar, lindíssimo. 
Café Gitane: restaurante pequeno no SoHo, com frequência moderna, muito ao estilo da vivência de Nova Iorque. Outro de que também gosto é o Epistrophy. Ambos ficam perto da minha loja, na Mott. 
Crosby Street Hotel: outro endereço com uma decoração fabulosa. Tem um bar muito, muito trendy, onde se bebe um óptimo mojito
Balthazar: um “clássico” que, apesar de já ser conhecido de muitos turistas, vale mesmo a pena visitar. O pequeno-almoço é delicioso e a sua clientela é a mais heterogéna possível. Estar no Balthazar é estar em Nova Iorque e a padaria, na porta ao lado, tem talvez os melhores pães que já comi. 

E ainda sobre o livro que acabou de publicar:
Título: O Melhor Livro de Chocolate do Mundo
Editora: Casa das Letras (LeYa)
Nº de págs.: 160
PVP: €16,95

10.4.12

#novidade: jordi roca, o benjamim do clã celler de can roca, a um passo de estrear a rocambolesc gelateria em girona

[Os famosos irmãos Roca, sendo que Jordi é o da esquerda (foto com direitos reservados)]

O facto de ser o mais novo dos irmãos Roca permite-lhe alguma irreverência, mas não tira a Jordi a enorme responsabilidade de ter, juntamente com Joan e Josep, o seu nome associado ao restaurante Celler de Can Roca, três estrelas Michelin no guia de 2012 (um peso-pesado na Catalunha, que tanto reclamou da falta de estrelas) e número dois a nível mundial segundo os prémios San Pellegrino de 2011 atribuídos pela revista "Restaurant" (logo veremos, a 30 de Abril, o que lhe reserva a sorte este ano).

[Esta imagem, qual amuse-bouche, já está no Facebook (foto com direitos reservados)]

Tal como eu, Jordi aderiu, não faz muito tempo, ao instagram e fê-lo mesmo a tempo de começar a partilhar, a conta-gotas, as primeiras imagens da mais recente extensão da marca Roca.

[©jordi roca, todos os direitos reservados]

Com abertura prevista para depois da Semana Santa, nenhum dos irmãos se descose sobre a data exata da inauguração, mas graças aos "instantâneos" de Jordi, um pasteleiro de mão-cheia que chamou a si a supervisão do novo projeto, dá já para suspirar com o que vem por ai.

[©jordi roca, todos os direitos reservados]

E o que vem por ai, para começar, é um nome muito bem apanhado, a prestar-se ao trocadilho, que nem precisa de tradução ou maiores explicações.

[©jordi roca, todos os direitos reservados]


[©jordi roca, todos os direitos reservados]

Assim se chama a geladaria que, além de nome, possui endereço fixo na mesma Girona, a norte de Barcelona, onde fica também o Celler.

[©jordi roca, todos os direitos reservados]

Dizer que todos os gelados ali produzidos e vendidos serão artesanais e 100% naturais sabe a muito pouco, convenhamos, tratando-se dos irmãos Roca. 

[©jordi roca, todos os direitos reservados]

Jordi já avisou para não esperarmos uma geladaria  tradicional. Equipados com máquinas que podem misturar até seis sabores, eles vão sobretudo apostar na criação de sobremesas servidas, isso sim, sob a forma de gelados e que, de uma maneira ou outra, farão referência às receitas e fórmulas do Celler.

[©jordi roca, todos os direitos reservados]

Sabe-se, porque Jordi já o confessou a um jornal, que um dos gelados será uma combinação de requeijão de ovelha (a versão catalã é bem mais cremosa do que a ricota), molho de goiaba, doce de leite e nuvem de açúcar, mas o propósito é que tudo o que for ali vendido seja obtido a partir de produtos locais, que tenha um preço ajustado e que possa, inclusive, ser levado para casa ou saboreado na rua.

[©jordi roca, todos os direitos reservados]

Nada foi descurado, tanto que as embalagens, desenhadas por Andreu Carulla, foram pensadas para nos recordar a infância e para que, ainda segundo Jordi, tenhamos vontade de as transportar connosco.

[©jordi roca, todos os direitos reservados]

Jogada subliminar ou não — a decoração da loja foi entregue a Sandra Tarruella, que, consta, ter-se-á inspirado no universo de Willy Wonka e a fábrica de chocolate — , o facto é que esta Rocambolesc poderá vir a ter, em Espanha e não só, outras réplicas. E alguém duvida que vai ter fila na porta para provar as novas guloseimas dos irmãos Roca? 

[Os últimos retoques na fachada (©jordi roca, todos os direitos reservados)]

Neste caso nem é preciso ver para crer, mas, enquanto, Rocambolesc não abre, resta-nos, além das fotos, matar o desejo e a curiosidade com este teaser:


C/ de Santa Clara, 50, Girona, Espanha

9.4.12

#gente em destaque: à conversa com fátima moura a propósito do livro "portugal: o melhor peixe do mundo"


[A capa do livro (foto de divulgação)]


"O que mais me marcou em Portugal foi a qualidade do seu peixe e marisco. Maravilhoso e impressionante. Para mim são os melhores do mundo".

[A receita Shabu-shabu de pulpitos, partilhada por Ferran Adrià (foto de divulgação)]

Quem o diz é, só, Ferran Adrià, o chef-superstar catalão, porventura o mais conhecido à escala planetária e de quem se continua a falar mesmo depois do fecho do elBulli.

["Escudella" de Bacalhau segundo Joan Roca (foto de divulgação)]

Além de Adrià, outros sete chefs, nacionais e estrangeiros, partilharam as suas receitas num livro recente que não se fica pelas meias-tintas. O seu título é "Portugal: O Melhor Peixe do Mundo".

[Cavala marinada e braseada com gel de gaspacho alentejano, de José Avillez (foto de divulgação)]

Assim mesmo, sem tirar nem pôr.

[A autora, Fátima Moura (@mário cerdeira)]

Para justificar esta tese, Fátima Moura, a autora, ouviu vários especialistas em diferentes áreas — da saúde à biologia, da nutrição à história da alimentação e à gastronomia — que não se fizeram rogados em dar o seu testemunho sobre a qualidade e a importância do peixe e marisco portugueses. 

[Cataplana de mariscos, de Bertílio Gomes (foto de divulgação)]

O livro, que conta com a coordenação de José Bento dos Santos (Academia Portuguesa de Gastronomia) e faz parte de uma estratégia maior para promover Portugal naquilo que a sua gastronomia tem de melhor, serviu-me de pretexto para uma pequena conversa com a Fátima Moura (abençoado Facebook!) que reproduzo mais abaixo.

[Salmonete assado com migas de choco com tinta e molho dos fígados, de José Avillez (foto de divulgação)]

Antes, porém, uma brevíssima biografia para quem ainda não conhece a Fátima Moura e/ou não deu pelas suas obras ("O Grande Livro dos Chefs" e "Cataplana Experience" antecederam o último lançamento), pelas suas crónicas à volta da gastronomia (ela é uma entusiasta e apaixonada pelo tema) e pela sua página no Facebook, Conversas à Mesa, onde partilha experiências, descobertas e tudo o mais que lhe apraz dizer quando o assunto é boa mesa.

[Sopa de Tamboril, de Paulo Morais (foto de divulgação)]

Nasceu em Angola, passou pelo Brasil e, atualmente, vive em Portugal, mais precisamente em Cascais — e espero não estar a cometer nenhuma inconfidência. Até onde sei, já foi professora, assistente de bordo, tradutora e editora. Licenciada em filosofia, o curso de cozinha profissional, tirado na Escola de Hotelaria do Estoril em 1984, foi um marco de viragem na sua vida, pois desde então começou a traduzir, e, mais tarde, a editar livros ligados à gastronomia (na forja tem já um outro sobre enchidos para a coleção de Filatelia dos CTT).

[Tempura de Lingueirão, de Paulo Morais (foto de divulgação)]

JMS: quando e como surgiu a ideia de fazer do nosso peixe e marisco dois trunfos de peso para catapultar a imagem de Portugal e da gastronomia portuguesa?
FM: A ideia de promover o nosso peixe foi do José Bento dos Santos que a integrou no projecto Prove Portugal, do Turismo de Portugal, como um dos cinco ícones da nossa gastronomia em termos de promoção no estrangeiro e no nosso país. Os outros quatro são os nossos chefs, a cataplana, o vinho do Porto e os pastéis de Belém. José Bento dos Santos já tinha sido responsável pela promoção da cataplana no Allgarve, com resultados fabulosos. Nessa altura, eu fui convidada para escrever o Cataplana Experience, um dos instrumentos dessa promoção.

[Pregado grelhado, de Leonel Pereira (foto de divulgação)]

JMS: até que ponto a maioria dos portugueses tem noção do imenso potencial do seu peixe? Ou será que, ironicamente, pela mudança de hábitos e pelo elevado preço dos pescados frescos, estão a consumir menos?
FM: acho que os portugueses sempre foram apaixonados por peixe. De facto, hoje em dia o peixe fresco tornou-se quase um luxo, mas nós temos a sorte de ainda conseguir incluir bom peixe na nossa alimentação. Devemos comer peixe em quantidades moderadas, tal como qualquer outra proteína, e variar o mais possível em termos de espécies.

[Sardinhas em mousse e escabeche, de Vítor Sobral (foto de divulgação)]

JMS: quais são os grandes rivais, em termos de qualidade, frescura e sabor, de Portugal em matéria de peixe e marisco? Será que Portugal tem capacidade de produção, e meios de distribuição, para fazer jus, a nível internacional, a este epíteto?
FM: Espanha, sem dúvida, através, por exemplo, da costa da Galiza, e a costa atlântica de França. Temos que procurar recuperar os meios de pesca, que nunca poderão ser os grandes arrastões ou as grandes frotas, sob perigo de destruirmos a nossa riqueza marinha. Temos ótimas condições de distribuição.

[Meloa e ostras, de Bertílio Gomes (foto de divulgação)]

JMS: se tivesse de resumir a três palavras-chaves todos os argumentos e teses a favor do peixe português que recolheu para este livro, quais seriam?
FM: condições naturais dos habitats marinhos, sistema de pesca artesanal e saber-fazer das gentes envolvidas nesta atividade.

[Atum corado, de Vítor Sobral (foto de divulgação)]

JMS: não há praticamente nenhum chef em Portugal — e a Fátima falou e recolheu receitas de vários — que não enalteça a qualidade do peixe e mariscos nacionais. Como vê o trabalho que está a ser feito nesse sentido? Estamos no caminho certo?
FM: o nosso peixe tem uma vertente fabulosa que nunca se perderá: o grelhado, de preferência à beira-mar. Aproveito para deixar aqui um pedido aos restaurantes: escalem cada vez menos o peixe, para não o secarem, ainda que o serviço demore um pouco mais. Contudo, há certas espécies de peixe que  merecem confeções mais elaboradas, quer ao nível dos grandes chefs, quer ao nível de restaurantes mais tradicionais. Todas estas vertentes devem ser trabalhadas para que a riqueza da oferta seja cada vez maior.

[Robalo levemente fumado com caviar Sévruga, de Jean-Michel Lorain (foto de divulgação)]

JMS: o que falta à nossa cataplana algarvia, por exemplo, para atingir o mesmo grau de reconhecimento e notoriedade de uma cocotte, de uma paella ou de um tagine?
FM: falta-lhe um esforço continuado de promoção, de comunicação, porque em termos de beleza ou de condições técnicas tem de sobra em relação às que mencionou. É um utensílio fabuloso que aconselho vivamente nas nossas cozinhas de casa. O que foi feito em quatro anos trouxe-lhe uma notoriedade impensável algum tempo atrás.

Editor: Assírio & Alvim
Tipo de artigo: Livro
Número de páginas: 190
Idioma: Português
Preço: €38

5.3.12

#novidade: herdade da nespereira & moinho velho, refúgio de charme perto de Odemira, no alentejo

[Vista geral da Herdade da Nespereira & Moinho Velho, no concelho de Odemira, (foto de divulgação)]

Não são conhecidos ainda grande detalhes, até porque o site está a ser ultimado e até ver existe apenas uma página no Facebook, mas há um novo projeto turístico no Alentejo e a sua abertura ao mercado português deve ser tornada oficial nos próximos dias pela agência de comunicação que vai fazer a sua assessoria.

[O moinho velho entretanto recuperado (foto de divulgação)]

Mas, e até porque não me foi pedido segredo, dá já para adiantar alguns detalhes em primeiríssima mão.

[Vários hectares de sobreiros fazem parte dos atrativos da herdade (foto de divulgação)]

Gerida pela família inglesa Gredely, que habita na casa principal, a Herdade da Nespereira & Moinho Velho, na localidade de Casa Nova da Cruz (concelho de Odemira, nas imediações de São Teotónio), levou sete anos a tomar forma.

[Um dos quartos do Monte do Carvalho (foto de divulgação)]

Em plena área de Reserva Natural, rodeada de floresta de sobreiros (aliás, a propriedade inclui uma nova plantação de 25 hectares só de sobreiros), esta herdade tratou de capitalizar atrativos que já existiam, como um moinho e quatro reservatórios de água, e idealizou um conceito de hospedagem assente em quatro montes (totalmente equipados, eles são personalizados e respondem por nomes próprios como Carvalho, Cortiça ou Azenha) e quatro refúgios florestais, todos eles rústicos, com mobiliário típico alentejano recuperado dos anos 1970 e que permitem diferentes tipos de contato com a Natureza circundante.

[Sala do Monte da Cortiça (foto de divulgação)]

Na casa principal, residência dos donos, ficarão serviços de apoio como a piscina comum, o café e uma clubhouse. Entre as atividades previstas — ah, detalhe importante, famílias com crianças serão bem-vindas, com ocupações específicas para os hóspedes mais novos —, destaque para práticas saudáveis como o ioga ou o qigong, além de caminhadas, surf ou passeios em bicicleta de montanha.

[Mais simples e rústicos, os refúgios florestais são outra alternativa de alojamento (foto de divulgação)]

E é tudo o que se pode contar por agora.

29.2.12

#estrada fora: pit stop na herdade dos grous, no alentejo, a pretexto do vinho, da comida, do bom tempo e do que regala a vida e é de gosto | parte I

[Vista geral da Herdade dos Grous (foto de divulgação) e o quarto 1105, batizado como Alfarrobeira  (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Hoje, já se começa a falar em chuviscos, mas quando fui até ao Alentejo, na semana passada, o antigo celeiro de Portugal contava já mais de quarenta dias sem ver pingo de água.

Ainda assim, e graças a uma barragem que ocupa 98 hectares numa propriedade com mais de 700, a Herdade dos Grous, em Albernôa (concelho de Beja), mantém-se, até ver, verdejante — a que não será alheio também o facto de estar a regar as suas culturas.

[O projeto de enoturismo é uma das vertentes dos Grous (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

A seca severa inspira cuidados e preocupações, mas a relativa calma com que se vive este período por ali fez com que o Sol fosse encarado mais como uma bênção e menos como uma punição durante a minha curta visita.

O que fui ali fazer? 

[A traça típica alentejana foi uma inspiração... (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Antes de mais, satisfazer uma curiosidade. Apesar de funcionar já como enoturismo há uns anos, não muitos, a Herdade dos Grous goza, até na região, de uma certa aura de isolamento e criou-se a ideia de que é um mundo à parte, pouco acessível à maioria dos portugueses.

[A piscina sobre a barragem (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

A produção de vinhos em nome próprio deu-lhe outra visibilidade, é certo, mas ainda assim prevalece a convição de que a Herdade dos Grous se coloca à margem. O facto de pertencer, desde 1996, à família alemã Pohl, cuja fortuna provém dos seguros, contribuiu para isso.

[A seca tem desta coisas, como tornar tentadora uma piscina em finais de Fevereiro (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Mas a Herdade dos Grous merece ser mais conhecida. Pelos bons vinhos que produz, sem dúvida, mas também por um modelo de turismo e de gestão agrícola que busca a sustentabilidade. 

[Um dos quartos da herdade (foto de divulgação)]

Do enoturismo não vou falar muito, limitando-me a mostrar aqui um quarto, para terem uma ideia, e a contar alguns pormenores. Repartidos por diferentes blocos, que imitam a arquitetura típica alentejana (embora o azul das barras não seja o "legítimo"), os quartos estão todos batizados com nomes de árvores.

[A largueza do horizonte (foto de divulgação)]

Na verdade, o pretexto da minha ida aos Grous passa pela sua ligação ao resort algarvio Vila Vita. Os dois são propriedade dos Pohl, tendo cabido sempre ao último a gestão hoteleira do primeiro. A herdade, por seu turno, está incumbida, entre outras responsabilidades próprias, de abastecer com os seus produtos os vários restaurantes do Vila Vita, incluindo o Ocean, a cargo do chef austríaco Hans Neuner, que ganhou a sua segunda estrela Michelin em 2012.

[São 200 as cabeças de gado (foto de divulgação)]

Para levar a cabo essa tarefa, foi determinante, a partir de 2002, a contratação do enólogo Luís Duarte. Depois de 18 anos à frente da Herdade do Esporão, e de ter contribuído para produzir algumas das marcas mais emblemáticas do Alentejo, o primeiro enólogo a formar-se em Portugal soube entender, como ninguém, a morfologia da Herdade dos Grous e procedeu, em cinco fases, à plantação de vinhas em 73 hectares. 

[As vinhas estendem-se por 73 hectares (foto de divulgação)]

Ao longo de todo o processo foram encepados cerca de 3300 pés por hectare, sobretudo de variedades tintas regionais, além de algumas castas internacionais bem adaptadas à região. Terminada a fase de produção integrada, estão agora a produzir de forma biológica, faltando apenas dois anos para a Herdade dos Grous atingir o estatuto de agricultura biológica.

Isso implica que podem à mesma usar enxofre, cobre, mas estão proibidos de usar herbicidas e procedem ao plantio de leguminosas que, depois de cortadas, introduzem azoto no solo. E não se julgue que esta questão biológica é apenas um capricho para ficar bem na foto. Os Grous, sob a gestão de Luís Duarte, praticam a sustentabilidade em praticamente tudo o que fazem. Dos vinhos aos pomares, das hortas à criação de gado (começaram por ter várias raças, mas hoje optaram apenas por uma raça alentejana, com 200 cabeças, apostando igualmente na criação do porco preto). 

[Não é garantido avistar grous, que são aves migratórias, mas não faltam outros animais, como cavalos (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Voltando aos vinhos, a adega começou a ser construída em 2004 e, como é ponto de honra nos Grous, estabelece um compromisso interessante entre a tradição (neste caso dos processos de vinificação) e a modernidade tecnológica. Foi um passo determinante para expandir o negócio e marcou, a partir de 2005, o início de uma maior abertura ao exterior.

[A adega da Herdade dos Grous (foto de divulgação)]

Para quem visita, e é apenas um curioso na matéria, a parte mais divertida é sempre aquela onde se passa em revista as barricas em carvalho francês. Dá para perceber que é (ainda) uma adega recente, mas com uma maturidade e uma gestão otimizada que lhe permite já produzir quatro tintos e dois brancos de "responsa" — equilibrados, de boa cepa alentejana, mas com um perfil internacional, modernos e bem feitos. E não sou eu quem o diz, e sim vários enófilos com quem falei à posteriori.

[Uma das barricas em carvalho francês (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

No almoço que se seguiu, foi-me dada a oportunidade de degustar, a acompanhar as várias entradas e pratos, vinhos de 2010. Primeiro um branco mais leve, seguido de um reserva. Vou tentar traduzir por miúdos as razões que me levaram a ficar arrebatado por este último: elaborado sobretudo a partir da casta Antão Vaz (com notas de Verdelho e Viognier), o que lhe dá um toque todo especial é o facto de ter estagiado por seis meses em barricas novas de carvalho francês. E isso, meus amigos, faz muita diferença.

[A sala do restaurante, com um toque rústico q.b. (foto de divulgação)]

Por ter sido submetido a um contato mais ativo com a borra (o que se entende por bâtonnage), apresenta-se como um vinho guloso, untuoso, intenso (cerca de 14º graus) e que sabe claramente a frutas exóticas maduras. Há quem ache que poderia ser um pouco mais ácido, o que aumentaria a sua frescura; concordo, mas, no conjunto, pareceu-me harmonioso e maridou-se muito bem com os petiscos alentejanos.

[O sal chega-nos assim à mesa (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Seriam ainda servidos, nos tintos, um Colheita de 2010, o 23 Barricas (após estágio de 12 meses de carvalho francês, foram apenas selecionadas 23 barricas de Syrah e Touriga Nacional para o produzir, daí o nome) e, já nas sobremesas, o Moon Harvested (o nome poderia ser traduzido por "Colheita da Lua", é encorpado sem chegar a ser pesado).

[O azeite, o queijo curado de ovelha e o pão (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Mas chega de falar dos vinhos. Muitos não saberão, como eu não sabia, mas o restaurante da Herdade dos Grous está aberto, todos os dias, ao público. Claro que, pelas condicionantes da herdade, está mais vocacionado para receber grupos e eventos, mas prevalece o propósito de bem  servir quem por ali aportar, o que me agradou.

[O presunto (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Com a elegância rústica comum às grandes casas alentejanas, a sala do restaurante logo passou para segundo plano à medida que foram chegando as várias entradas. Bom presunto, queijo curado de ovelha, pão alentejano e azeite com o selo dos Grous.

[Deliciosamente simples estas tibornas (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

É, aliás, com esse azeite extra virgem, produzido apenas por meios mecânicos, que preparam as deliciosas tibornas. Como é que uma coisa tão simples, só com azeite e pão, pode saber tão bem?

[A terrina de ovos mexidos com espargos (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Por altura dos ovos mexidos com espargos, já estava mais do que saciado, mas foi só ver a travessa de carnes, com porco preto e costeletinhas de borrego, acompanhadas de batatas, courgettes e cenouras, para recuperar o juízo. Foi tal a distração que, quando dei por ela, já era demasiado tarde para fotografar o prato...

[O que dizer, ou escrever, sobre este sortido rico de sobremesas? (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Felizmente, fui ainda a tempo de captar a sobremesa. Ou melhor, as sobremesas. Vários doces alentejanos, entre groselhas, amores-perfeitos e uma rosa, tudo comestível. Lindo.

Óbvio que este almoço se prolongou mais do que deveria, ou era suposto, e o que era apenas para ser uma "escala técnica" acabou por se tornar uma agradável tertúlia. Mérito do Luís Duarte, que se revelou um anfitrião e um contador de histórias de mão cheia.

Igualmente difícil, se não mesmo impossível, é alguém sair dos Grous de mãos à abanar, sem antes passar na loja de vinhos para um "abastecimento" providencial. 

Ficou a promessa de voltar com mais tempo. De volta à estrada, a hora era agora a de seguir o rasto ao que se produz nos Grous e vai parar aos restaurantes do resort Vila Vita, já no Algarve.

Cenas que mostrarei, e coisas que contarei, no próximo post, pois então. 
(continua...)

Herdade dos Grous | Albernôa, Beja, tel. 284 960 000
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