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8.2.13

#livros: where chefs eat | siga o chef

Lançado em simultâneo pela editora Phaidon em vários países, Portugal incluído, Where Chefs Eat apresenta-se como “o” guia de restaurantes feito por quem realmente percebe da coisa. Afinal, quando não estão nas suas cozinhas onde é que os chefs gostam de comer?  

A ideia não é exatamente nova. 

Já foi feito e até Ferran Adrià, o chef dos chefs, teve uma incursão nesse campo quando, recentemente, lançou o livro The Family Meal onde se propôs a desvendar as receitas, divididas por diferentes sugestões de menus, que a equipa do já mítico elBulli gostava de comer no seu dia a dia — porque aquilo que serviam, e tanta tinta fez correr, não era, nem nunca pretendeu ser, comida para todos os dias. 


A diferença é que nunca antes, como agora, alguém – neste caso uma vasta equipa da editora Phaidon liderada pelo food writer Joe Warwick — se propôs a fazê-lo de forma tão exaustiva e com tantos contributos preciosos. E numa época em que muitos chefs ascendem ao estatuto de superstars e tudo o que fazem, dizem e comem é escrutinado à minudência por uma legião cada vez mais numerosa de fãs, o timing da publicação (ainda para mais à escala planetária) não poderia ser melhor. 


Ao contrário de outros guias de restaurantes, neste, e tirando proveito da lógica cada vez mais incutida pela partilha nas redes sociais, as mais de duas mil recomendações, arrumadas geograficamente e numa variedade que vai do bom e barato ao muito caro e incontornável, não resultaram de uma avaliação de críticos especializados ou de qualquer um outro critério de classificação. 


Elas simplesmente expressam as preferências de mais de 400 chefs que, quando inquiridos onde gostavam de comer, não se fizeram rogados a abrir o seu mapa da mina. 

E quem no seu juízo perfeito — a menos que sofra de alguma aversão ao tema — não sente pelo menos curiosidade em saber onde comem alguns do que são hoje considerados os melhores chefs do mundo — e estamos a falar do dinamarquês René Redzepi, do italiano Massimo Bottura, do francês Pierre Gagnaire, do britânico Heston Blumenthal, do coreano-americano David Chang, do espanhol Adoni Luiz Aduriz ou do brasileiro Alex Atala, só para citar um punhado? 


No caso de Portugal, quem faz as honras da casa, com indicações pessoais de norte a sul (mas é Lisboa que merece um capítulo à parte), são os chefs Alexandre Silva, Luís Baena, José Cordeiro, José Avillez. Miguel Castro e Silva, Henrique Sá Pessoa, Fausto Airoldi, Vítor Sobral, Ljubomir Stanisic e restaurateur Olivier da Costa. 

Surpresa ou não, os dois restaurantes lusos com mais recomendações são a Bica do Sapato e a Cervejaria Ramiro... 

Aliás, e como sempre acontece, este guia não está isento de críticos. Mal saiu houve quem não perdesse tempo a apontar a relativa previsibilidade de algumas escolhas, as informações demasiado sucintas ou até alguns erros geográficos de palmatória. 

Mas, no geral, e pese as falhas, Where Chefs Eat cumpre aquilo a que se propôs e serve já de fiel escudeiro a muito bom garfo trota-mundos.

Em Portugal, este guia encontra-se à venda na Fnac, por exemplo, ao preço de € 21,15

12.4.12

#gente em destaque: as escolhas de carlos braz lopes em nova iorque a pretexto de "o melhor livro de chocolate do mundo" e do bolo com que tudo começou


[Carlos Braz Lopes, o autor de O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo, fotografado para o seu primeiro livro (©ana paula carvalho)]


Talvez não se associe, de imediato, o nome de Carlos Braz Lopes a uma das marcas registadas de maior êxito de Portugal, mas este é o homem que criou e fez de O Melhor Bolo de Chocolate do Mundo (MBCM) um case study

Depois de deixar os portugueses pelo beicinho, o negócio expandiu-se para o Brasil (onde, entretanto, foi adquirido pela CPQ Brasil S.A. e vai de vento em popa, com lojas em vários pontos do país), e ganhou filiais em Madrid, Nova Iorque e, mais recentemente, pasme-se, em Sydney, na Austrália. 

Além do Galo de Barcelos estilizado, presença obrigatória, as lojas além-fronteiras vendem outros produtos made in Portugal como sanduíches de queijo da serra com marmelada.

[A capa de "O Melhor Livro de Chocolate do Mundo" (foto de divulgação)]

Quem só conhece o empresário de sucesso, dirá que tem olho para o negócio, mas desconhece que atrás da fórmula está um homem que, não sendo cozinheiro, ganhou o respeito e a amizade de inúmeros chefs e figuras da gastronomia portuguesa por ser proprietário da loja Cozinhomania e percursor, numa altura em que o assunto ainda não era moda, dos cursos de cozinha em solo nacional desde 1997.

Há dias, num espaço que lhe é muito caro (o Mercado de Santa Clara, onde era sócio-gerente do restaurante que levava o mesmo nome e que se encontra para trespasse), juntou ao seu currículo um livro.

Numa época em que toda agente escreve livros — e para mais, livros de receitas —, a iniciativa arriscar-se-ia a passar quase despercebida, não fosse ele um homem que gosta de correr riscos e um provocador nato.

[Bolo de Bolacha do Sebastião, uma das receitas do livro (@ana paula carvalho)]

O livro traz como título, nada mais, nada menos, "O Melhor Livro de Chocolate do Mundo" e vem recheado de receitas simples e sem pretensões a ser mais do que realmente são.

Sempre sem fugir ao chocolate, ele rebuscou nas suas memórias de infância, assenhorou-se de receitas de amigos e conhecidos e montou todo um roteiro de guloseimas que acaba por ser também um exercício de afetos.

Com fotografias de Ana Paula Carvalho e food styling de Maria Antónia Linhares, o livro só não traz, como é óbvio, a receita do MBCM. Mas essa, ele não revela nem sob tortura, eu acho.

[Cheesecake de chocolate branco, outra receita do livro (©ana paula carvalho)]

Já das suas viagens, que adora, não faz segredo. Há uns tempos pedi-lhe, a propósito dos 10 anos do fatídico 11 de Setembro, um miniroteiro dos seus endereços de eleição quando está em Nova Iorque. O artigo, que se destinava ao extinto suplemento NS, acabou por não sair. Uma culpa que carrego, embora não sendo minha, e da qual me redimo em parte ao partilhar agora, e aqui, o seu itinerário sugerido. 

[The Standard, o hotel eleito de Braz Lopes na "Grande Maçã" (foto de divulgação)]


Manhattan por Braz Lopes (para lá, claro, da loja do MBCM em 37 Spring St., entre as ruas Mott e Mulberry): 

The Standard: é um hotel fantástico; pela vista dos quartos, e também pelo seu bar, lindíssimo. 
Café Gitane: restaurante pequeno no SoHo, com frequência moderna, muito ao estilo da vivência de Nova Iorque. Outro de que também gosto é o Epistrophy. Ambos ficam perto da minha loja, na Mott. 
Crosby Street Hotel: outro endereço com uma decoração fabulosa. Tem um bar muito, muito trendy, onde se bebe um óptimo mojito
Balthazar: um “clássico” que, apesar de já ser conhecido de muitos turistas, vale mesmo a pena visitar. O pequeno-almoço é delicioso e a sua clientela é a mais heterogéna possível. Estar no Balthazar é estar em Nova Iorque e a padaria, na porta ao lado, tem talvez os melhores pães que já comi. 

E ainda sobre o livro que acabou de publicar:
Título: O Melhor Livro de Chocolate do Mundo
Editora: Casa das Letras (LeYa)
Nº de págs.: 160
PVP: €16,95

9.4.12

#gente em destaque: à conversa com fátima moura a propósito do livro "portugal: o melhor peixe do mundo"


[A capa do livro (foto de divulgação)]


"O que mais me marcou em Portugal foi a qualidade do seu peixe e marisco. Maravilhoso e impressionante. Para mim são os melhores do mundo".

[A receita Shabu-shabu de pulpitos, partilhada por Ferran Adrià (foto de divulgação)]

Quem o diz é, só, Ferran Adrià, o chef-superstar catalão, porventura o mais conhecido à escala planetária e de quem se continua a falar mesmo depois do fecho do elBulli.

["Escudella" de Bacalhau segundo Joan Roca (foto de divulgação)]

Além de Adrià, outros sete chefs, nacionais e estrangeiros, partilharam as suas receitas num livro recente que não se fica pelas meias-tintas. O seu título é "Portugal: O Melhor Peixe do Mundo".

[Cavala marinada e braseada com gel de gaspacho alentejano, de José Avillez (foto de divulgação)]

Assim mesmo, sem tirar nem pôr.

[A autora, Fátima Moura (@mário cerdeira)]

Para justificar esta tese, Fátima Moura, a autora, ouviu vários especialistas em diferentes áreas — da saúde à biologia, da nutrição à história da alimentação e à gastronomia — que não se fizeram rogados em dar o seu testemunho sobre a qualidade e a importância do peixe e marisco portugueses. 

[Cataplana de mariscos, de Bertílio Gomes (foto de divulgação)]

O livro, que conta com a coordenação de José Bento dos Santos (Academia Portuguesa de Gastronomia) e faz parte de uma estratégia maior para promover Portugal naquilo que a sua gastronomia tem de melhor, serviu-me de pretexto para uma pequena conversa com a Fátima Moura (abençoado Facebook!) que reproduzo mais abaixo.

[Salmonete assado com migas de choco com tinta e molho dos fígados, de José Avillez (foto de divulgação)]

Antes, porém, uma brevíssima biografia para quem ainda não conhece a Fátima Moura e/ou não deu pelas suas obras ("O Grande Livro dos Chefs" e "Cataplana Experience" antecederam o último lançamento), pelas suas crónicas à volta da gastronomia (ela é uma entusiasta e apaixonada pelo tema) e pela sua página no Facebook, Conversas à Mesa, onde partilha experiências, descobertas e tudo o mais que lhe apraz dizer quando o assunto é boa mesa.

[Sopa de Tamboril, de Paulo Morais (foto de divulgação)]

Nasceu em Angola, passou pelo Brasil e, atualmente, vive em Portugal, mais precisamente em Cascais — e espero não estar a cometer nenhuma inconfidência. Até onde sei, já foi professora, assistente de bordo, tradutora e editora. Licenciada em filosofia, o curso de cozinha profissional, tirado na Escola de Hotelaria do Estoril em 1984, foi um marco de viragem na sua vida, pois desde então começou a traduzir, e, mais tarde, a editar livros ligados à gastronomia (na forja tem já um outro sobre enchidos para a coleção de Filatelia dos CTT).

[Tempura de Lingueirão, de Paulo Morais (foto de divulgação)]

JMS: quando e como surgiu a ideia de fazer do nosso peixe e marisco dois trunfos de peso para catapultar a imagem de Portugal e da gastronomia portuguesa?
FM: A ideia de promover o nosso peixe foi do José Bento dos Santos que a integrou no projecto Prove Portugal, do Turismo de Portugal, como um dos cinco ícones da nossa gastronomia em termos de promoção no estrangeiro e no nosso país. Os outros quatro são os nossos chefs, a cataplana, o vinho do Porto e os pastéis de Belém. José Bento dos Santos já tinha sido responsável pela promoção da cataplana no Allgarve, com resultados fabulosos. Nessa altura, eu fui convidada para escrever o Cataplana Experience, um dos instrumentos dessa promoção.

[Pregado grelhado, de Leonel Pereira (foto de divulgação)]

JMS: até que ponto a maioria dos portugueses tem noção do imenso potencial do seu peixe? Ou será que, ironicamente, pela mudança de hábitos e pelo elevado preço dos pescados frescos, estão a consumir menos?
FM: acho que os portugueses sempre foram apaixonados por peixe. De facto, hoje em dia o peixe fresco tornou-se quase um luxo, mas nós temos a sorte de ainda conseguir incluir bom peixe na nossa alimentação. Devemos comer peixe em quantidades moderadas, tal como qualquer outra proteína, e variar o mais possível em termos de espécies.

[Sardinhas em mousse e escabeche, de Vítor Sobral (foto de divulgação)]

JMS: quais são os grandes rivais, em termos de qualidade, frescura e sabor, de Portugal em matéria de peixe e marisco? Será que Portugal tem capacidade de produção, e meios de distribuição, para fazer jus, a nível internacional, a este epíteto?
FM: Espanha, sem dúvida, através, por exemplo, da costa da Galiza, e a costa atlântica de França. Temos que procurar recuperar os meios de pesca, que nunca poderão ser os grandes arrastões ou as grandes frotas, sob perigo de destruirmos a nossa riqueza marinha. Temos ótimas condições de distribuição.

[Meloa e ostras, de Bertílio Gomes (foto de divulgação)]

JMS: se tivesse de resumir a três palavras-chaves todos os argumentos e teses a favor do peixe português que recolheu para este livro, quais seriam?
FM: condições naturais dos habitats marinhos, sistema de pesca artesanal e saber-fazer das gentes envolvidas nesta atividade.

[Atum corado, de Vítor Sobral (foto de divulgação)]

JMS: não há praticamente nenhum chef em Portugal — e a Fátima falou e recolheu receitas de vários — que não enalteça a qualidade do peixe e mariscos nacionais. Como vê o trabalho que está a ser feito nesse sentido? Estamos no caminho certo?
FM: o nosso peixe tem uma vertente fabulosa que nunca se perderá: o grelhado, de preferência à beira-mar. Aproveito para deixar aqui um pedido aos restaurantes: escalem cada vez menos o peixe, para não o secarem, ainda que o serviço demore um pouco mais. Contudo, há certas espécies de peixe que  merecem confeções mais elaboradas, quer ao nível dos grandes chefs, quer ao nível de restaurantes mais tradicionais. Todas estas vertentes devem ser trabalhadas para que a riqueza da oferta seja cada vez maior.

[Robalo levemente fumado com caviar Sévruga, de Jean-Michel Lorain (foto de divulgação)]

JMS: o que falta à nossa cataplana algarvia, por exemplo, para atingir o mesmo grau de reconhecimento e notoriedade de uma cocotte, de uma paella ou de um tagine?
FM: falta-lhe um esforço continuado de promoção, de comunicação, porque em termos de beleza ou de condições técnicas tem de sobra em relação às que mencionou. É um utensílio fabuloso que aconselho vivamente nas nossas cozinhas de casa. O que foi feito em quatro anos trouxe-lhe uma notoriedade impensável algum tempo atrás.

Editor: Assírio & Alvim
Tipo de artigo: Livro
Número de páginas: 190
Idioma: Português
Preço: €38

26.1.12

#gente em destaque: ferran adrià (sempre ele) a nu na edição mais do que especial de 2012 da revista "matador"

[Adrià é o grande protagonista da edição de 2012 da revista espanhola "Matador" dedicada à letra "N" (foto de divulgação)]

"Ferran Adrià não é um cozinheiro. É um criador e um intérprete que converteu a cozinha numa representação, numa performance, numa ópera."

A tradução para português é minha, mas as palavras são de Vicente Todolí, a quem coube a honra de fazer o texto de abertura da edição deste ano da revista espanhola "Matador", com lançamento previsto em Março (publicada por La Fabrica, em espanhol e inglês, preço de capa: €70, é já possível fazer a pré-encomenda pela Amazon ou no site da editora).

[Adrià tirou a roupa para a capa de uma edição que promete tornar-se um objeto de desejo e de coleção (foto de Pedro Madueño)]

Desde o fecho do elBulli, em finais de Julho de 2011, perdi a conta às capas, às entrevistas, aos documentários e a tudo o mais que diga respeito a Adrià. 

Muito mais está ainda por vir (um filme, uma exposição, mais livros...), pelo que nem eu, nem ninguém, acredita na retirada de cena de Adrià até à abertura da fundação elBulli no Verão de 2014 (ler aqui o que escrevi a propósito). De uma forma ou de outra, ele far-se-á presente.

[Foto publicada pela "Matador"]

E o que traz de novo esta edição da "Matador" que ainda não saibamos ou não tenhamos visto de Adrià?

Para começar, qualquer edição da "Matador" é, per si, uma coisa excecional. Editada à razão de uma por ano, nasceu com a letra "A" em 1995 e terminará com a letra "Z" em 2022. Cada edição temática, dedicada a uma letra diferente do alfabeto, versa sobre artes, cultura e tendências, o que já lhe valeu, pelos conteúdos e pelo layout apurado, inúmeros elogios e prémios internacionais.

[Foto publicada pela "Matador"]

A edição de 2012, que já vai na letra "N", tem Adrià como principal protagonista e, mesmo antes de estar disponível ao público, já fazia as manchetes de jornais como "El País" ou a revista "Time".

Os responsáveis pela revista sabiam de antemão que não bastaria fazer mais do mesmo. Para mostrar um lado desconhecido, e desvendar um pouco do que será o futuro do "chef mais influente da última década", a revista teve, por cerca de dois anos, uma equipa a trabalhar de muito perto com Adrià.

[Foto publicada pela "Matador"]

No capítulo dedicado ao passado, álbuns de fotos inéditas revelarão como era o restaurante antes da chegada de Adrià, quando pertencia ao casal Hans e Marketta Schilling, e de como era a vida de Ferran e do seu irmão Albert antes do elBulli. Há ainda maquetas em plasticina dos pratos mais emblemáticos servidos no restaurante e a demonstração do famoso El Mapa Evolutivo, método que Adrià utilizava para auditar a criatividade.

Para ilustrar o momento presente, quer Adrià, quer o seu irmão e sócio Albert falam dos seus percursos e dos projetos vindouros. Por outro lado, vários autores e artistas, como o músico Peter Gabriel (que compôs o CD "Full Strecht" para esta edição) ou o cineasta Bigas Luna, abordam a relação de Adrià com a ciência, o cinema, a educação ou as artes.

[Foto publicada pela "Matador"]

Numa outra perspetiva, a relação de Adrià com o Japão ganha destaque, com registos das suas visitas aos mercados e ao mítico restaurante Mibu, bem como dos pratos que criou inspirado pelo país do "Sol Nascente".

elBulli transformou para a sempre a forma como entendíamos e víamos a comida. Por isso mesmo, autores como Yves Michaud, Gastón Acurio ou o impagável Bob Noto escrevem sobre o prazer dos oito sentidos.

[Foto publicada pela "Matador"]

O número "N" não se fica por aqui. Entre outras coisas, há ainda um portfólio sobre a arquitetura do restaurante e um dicionário que desvendará um pouco mais sobre como será a fundação que surgirá em breve no seu lugar; importa, contudo, ressalvar que Adrià foi igualmente chamado a colaborar nos outros conteúdos da revista, tendo cabido a ele, por exemplo, a escolha dos três "matadores" de quem também se fala e escreve na edição: Johann Cruyff, por Vicente Verdú; Michel Guérard, por Andoni Luis Aduriz; e Rafa, por Silvia Fernández.

Sejamos francos. Com apenas sete mil exemplares, e um preço pouco "camarada", esta não é, nem pretende ser, uma revista para todos. Mas, como legado de uma época, tem tudo para se tornar algo digno de ser guardado e estimado.

19.12.11

#livro: o primeiro livro de receitas do chef cordeiro


O timing não podia ser melhor. 

Ser jurado do concurso "MasterChef" deu-lhe maior visibilidade junto do grande público e a estrela Michelin conquistada para o restaurante Feitoria, em Lisboa, na edição de 2012 dedicada à Península Ibérica desencadeou, em praticamente todos os quadrantes, uma reação de agrado, como que a dizer "já não era sem tempo".

Da estrela — das estrelas, na verdade, pois esta não foi a primeira que conseguiu —, já falei aqui, mas o chef José Cordeiro está de livro novo e isso merece um post.

[José Cordeiro como júri do concurso televisivo "MasterChef" (foto de divulgação)]

Em tantos anos de carreira, esta é, acredite-se ou não, uma estreia. "As Minhas Receitas Para Cozinheiros Amadores" é o primeiro livro do Chefe Cordeiro (Edições do Gosto, 210 págs., €19,90, à venda nas livrarias e no site da editora) e traz 52 receitas que o mesmo fez questão de testar na sua cozinha.

Se na forma, por comparação a outras edições nacionais e internacionais similares lançadas recentemente, o livro de Cordeiro peca por não arriscar mais, já no conteúdo é de saudar o critério de seleção (mais do que dividir apenas as receitas em entradas, peixes, carnes e sobremesas, Cordeiro agrupa-as também por produtos da sua predileção como o polvo do Algarve, o café, os tremoços ou a Pêra Rocha do Oeste), a sua acessibilidade (as receitas são ilustradas nos passos mais importantes e há indicações claras quanto a tempo de preparação, número de pessoas, grau de dificuldade e custo) e o foco assumido na cozinha portuguesa.

[Bife à café em espeto "on the rocks", uma das receitas do livro, em parceria com a Nespresso (foto de divulgação)]

Conhecido pelo seu apego às boinas, Cordeiro nasceu em Luanda, Angola, mas diz-se transmontano dos sete costados — e Trás-os-Montes, e as coisas boas desta região como os enchidos ou o Bísaro, está em destaque no livro. Viveu um largo período fora de Portugal, mas é um dos defensores mais ferozes da cozinha de matriz lusa. Por isso mesmo, no livro que chegou faz muito pouco tempo aos escaparates, pode até não ser muito audacioso, mas dá um contributo de peso à mesma.

Porque são receitas equilibradas, bem executadas e fáceis de reproduzir. E também porque, no meio de toda a informação, tem a generosidade de juntar algumas receitas de colegas (como os filetes de polvo do Aleixo) ou de partilhar dicas úteis como a de cortar as pontas dos tentáculos do polvo para evitar que este encolha ao cozer.

7.12.11

#livro: é como ter ferran adrià, o chef mais conhecido do mundo, a ensinar-nos o bê-a-bá da cozinha

[foto de divulgação]
Não, por esta altura está longe de ser um segredo, mas não há dúvida de que o homem sabe gerir, como poucos, os raros momentos de silêncio em torno da sua persona pública. Passaram pouco mais de quatro meses desde o fecho do elBulli e, ainda assim, quase nunca se deixou de falar de Ferran Adrià desde então.

Não é para quem quer; é para quem pode. E sabe.


Como num passe de mágica, o chef catalão estalou os dedos e, voilà, mais um livro nos escaparates a dar brado pelas razões certas.


A bem da verdade, "The Family Meal" (384 págs., Phaidon), assim se chama o livro, já saiu há algum tempo, mas a tão aguardada versão em espanhol foi apenas lançada em finais de Novembro ("La Comida de la Familia", RBA).

Chegou-me às mãos dias atrás e, devo dizer, estou fascinado com o raio do livro.

Quando julgamos que Adrià já esgotou o baralho, eis que, numa jogada de mestre, saca de mais um ás.

[A "grande família" do elBulli à mesa, horas antes da abertura do restaurante (foto de divulgação)]

Esqueçam a cozinha complicada praticada no elBulli. Adrià reuniu a "grande família" do elBulli mas não foi para falar de espumas, ares e esferificações. 

Não?

Claro que não. Aquilo que eles serviam no elBulli, eles provaram antes, na altura de testar até à exaustão cada receita. Depois, no dia a dia, eles queriam mesmo era comida caseira e muito mais despretensiosa (por exemplo, no livro conta-se que a equipa repetia sobretudo os pratos de pasta fresca e não dispensava arroz, não importa a maneira).

[Dupla página do livro "The Family Meal" (foto de divulgação)]

E é dela, da comida caseira, que este livro fala. Fala e mostra, pois cada receita, por mais simples que seja, é ilustrada e explicada tintim por tintim, para que não fique nenhuma dúvida.

Nada pior do que um livro de cozinha cujas receitas são impraticáveis ou que, no pior dos cenários, dão a impressão de não terem sido testadas por quem as assina. Estas tanto estão pensadas para uma família de 2 a 6 pessoas como para funcionarem em grupos maiores, de 20 a 75 pessoas.

[Dupla página do livro "The Family Meal" (foto de divulgação)]

Um dos grandes trunfos deste livro é a sua acessibilidade; outro é a sua alta taxa de exequibilidade. Sério! Até um cozinheiro menos experiente vai conseguir dar conta do recado em boa parte do que é sugerido.

O livro começa por ensinar coisas tão "básicas" como cozer ou fritar um ovo, passando depois às receitas propriamente ditas. Primeiro vêm os essenciais como os vários tipos de molhos e caldos. Só depois passamos a 31 menus diferentes (cada um deles é dividido em três: entrada, prato principal e sobremesa), que podem incluir cheeseburgers, carne à bolonhesa, polenta, ossobuco, ovos com espargos, maçãs assadas, trufas de chocolate, crema catalana e por ai vai, mas sempre com o cuidado de não exceder os cerca de €4 por refeição.

Tudo extremamente "praticável", o que o torna num manual de consulta diária. Não é para ter na sala a ganhar pó, é mesmo para ter na cozinha e à mão.

[O "masterplan" do que virá a ser a elBulli Foundation (foto de divulgação)]

Antes de terminar, não resisto a partilhar aqui umas imagens que a Phaidon, a editora do livro, "liberou" faz um tempinho e que se destinam a desvendar um pouco do que poderá vir a ser a elBulli Foundation, com abertura prevista para o Verão de 2014 se tudo correr como previsto.


A fundação, destinada a ser um pólo futurista onde se vai pensar livremente a gastronomia dos anos vindouros, ficará no lugar do extinto restaurante, na costa catalã (Cala Montjol, Roses), mas vai assumir, graças ao plano do arquiteto Enric Ruiz-Geli da Cloud 9, formas orgânicas que lembram as rochas, a fauna e a flora envolventes. As fontes de energia serão, como era de esperar, renováveis.


Na verdade, ao ver estas primeiras projeções em 3D, a sensação que fica é a de estarmos perante várias nuvens,  repletas de superfícies espelhadas, pontos de luz natural e paredes vegetais, com uma forte componente lúdica (fala-se de uma varanda, por exemplo, que se chamará "Ninho" e será feita de penas de aves do Cap de Creus) e high-tech (toda a área terá cobertura wi-fi assegurada pela operadora espanhola Telefonica).
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