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27.6.11

#directo de madrid: roteiro rápido em 20 clics

Logo do restaurante DiverXo, do chef David Muñoz, uma estrela Michelin (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Lobby do Room Mate Oscar, Chueca (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Museo Thyssen-Bornemisza (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
CaixaForum Madrid (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Museo del Prado (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Centro de Arte Reina Sofia (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Calle de Lagasca (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Calle de José Ortega y Gasset (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Calle de Serrano (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Mercado de San Miguel (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Mercado de San Antón, Chueca (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Calle de Hortaleza, Chueca (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Calle de Fuencarral num sábado, Chueca (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Feira da Plaza del Dos de Mayo, Malasaña (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Calle de Manuela Malasaña a partir do restaurante Nina (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Calle de la Palma, Chueca (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Matadero (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Matadero (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Bloco de apartamentos junto ao Matadero (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)
Puente del Invernadero, sobre o rio Manzanares (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)

15.6.11

#livro: noma, diz que é o melhor restaurante do mundo


[Lançado pela Phaidon, em Novembro de 2010, o livro dedicado ao restaurante Noma do chef René Redzepi (fotos de divulgação)]



Dias atrás, quando chegou pelo correio, nem lhe dei a devida atenção, de tal forma estava embrenhado em outros afazeres, mas não é o tipo de livro a que se consiga ficar indiferente por muito tempo.

Lançado em Novembro do ano passado pela editora Phaidon, "Noma: Time and Place in Nordic Cuisine" seria sempre, pelas fotografias de Ditte Isager e styling de Christine Rudolph, um livro belíssimo; mas é bem mais que isso ao reunir, entre outras curiosidades, alguns dos pratos mais emblemáticos (e respectivas receitas) criados pelo über-chef dinamarquês René Redzepi para aquele que tem sido considerado, há dois anos consecutivos, o melhor restaurante do mundo pela revista Restaurant (quem quiser espreitar a lista completa, aqui está The World's 50 Best).


[Uma montagem de vários ambientes do Noma (fotos de divulgação)]

A eleição, que reflecte a avaliação de um painel de experts do mundo inteiro, não é, como tudo na vida, 100 por cento isenta ou alheia a lóbis e influências, mas isso nenhuma outra é. Porém, como todas as suas falhas e limitações, tornou-se nos últimos tempos, até mais do que as estrelas Michelin, uma referência para gastro-profissionais e um barómetro para gastro-curiosos como eu.

[René Redzepi e uma das receitas apresentadas no livro: pescoço de porco, violetas e malte (fotos de divulgação)]

Enquanto jornalista, há anos que frequento restaurantes dos mais variados tipos um pouco por todo o mundo. Por regra, e porque não faço crítica gastronómica, o meu fascínio e curiosidade sempre foi maior em relação aos hotéis, mas, recentemente, as coisas inverteram-se até certo ponto. E sem dúvida que fenómenos como elBulli, de Ferran Adrià (cujo fecho, a 30 de Julho, já originou mais posts e artigos do que qualquer outro), e agora o Noma, entre tantos outros que nem sequer são tão mediáticos, aguçaram os meus sentidos e fizeram-me prestar maior atenção ao que se passa neste campo — sobretudo quando as novidades chegam de países gastronomicamente emergentes como o Brasil, Peru ou México.

[René Redzepi fotografado no Noma, em Copenhaga (foto de divulgação)]

Serve isto para dizer que se antes já andava tentado a ir ao Noma, em Copenhaga, depois de devorar o livro, a vontade de me enfiar num avião para a Dinamarca só triplicou. 


[Mais uma receita do livro: sobremesa de flores (foto de divulgação)]

Os mais batidos nestas coisas dir-me-ão, com alguma razão, que também eu estarei, provavelmente, a ser vítima de um certo sugestionamento provocado por todo o burburinho à volta do Noma.

[Ovo de codorniz fumado (foto de divulgação)]

Em minha defesa, argumentarei que não sou de me deslumbrar à toa e que a minha curiosidade em relação a Redzepi e ao Noma vai bem mais além do factor modismo e do arrobo visual.

É fácil deixarmo-nos seduzir pelo apelo visual da cozinha do Noma — basta ver qualquer um dos exemplos que aqui reproduzo —, suficientemente universal para captar as atenções de meio mundo, mas se-lo-á igualmente a cozinha ali praticada? 

[Mirtilos rodeados pelo seu ambiente natural (foto de divulgação)]

É isso, mais do que tudo o resto, que me move a ir ao Noma.

Para os mais distraídos, a palavra Noma (que resulta da contracção de outras duas que, em dinamarquês, querem dizer comida nórdica) deve ser levada ao pé da letra. Redzepi não faz contemplações. O seu ponto de partida para o restaurante, aberto em 2003, foi um manifesto à cozinha do Atlântico Norte, que é como quem diz a nórdica, e ele não se tem desviado um milímetro dessa prerrogativa.

[Boneco de Neve, que leva iogurte, puré e sorvete de cenoura, entre outros ingredientes (foto de divulgação)]

Para levar a empreitada a bom termo, ele inova, ele cria, ele ousa, mas só trabalha com produtos regionais, sazonais (ou seja, frescos) e produzidos de forma artesanal e sustentada. A ementa servida varia muito em função do que há no dia. Há quem o acuse de fundamentalismo gastronómico, mas Redzepi até gosta.

[Campo de vegetais (foto de divulgação)]

Nem os dinamarqueses se importam, aliás. Tendo em conta que ainda na década de 1990 a gastronomia local, e nórdica, andava pelas ruas da amargura e não suscitava entusiasmo nem dentro nem fora de portas, não deixa de ser extraordinário que Redzepi, entre outros (mas ele é o expoente máximo da "revolução"), tenha conseguido fazer dela a nova coqueluche dos gourmets — gastronerds, já há quem diga — à escala planetária.

Mas não basta querer ir ao Noma. Não pelo preço, que há, por incrível que possa parecer a alguns, muita gente disposta a gastar no mínimo €200 para comer ali; mas pelo excesso de procura para tão pouca oferta. O Noma não vai ao ponto do elBulli, por onde Redzepi passou, que só abria seis meses ao ano e ainda assim só servia (e servirá, até finais de Julho) jantares por toda a complicada logística envolvida. Só que dispõe apenas de 12 mesas e o chef dinamarquês não abdica, por exemplo, de fechar anualmente para férias de Verão, entre 17 de Julho e 10 de Agosto.

Neste momento, o Noma só está a aceitar reservas até 30 de Setembro,  mas não será fácil conseguir uma. Para Outubro, conforme anunciado no site do restaurante, as reservas serão abertas no dia 11 de Julho, pelas 10.00 (hora de Copenhaga). 

À falta de um lugar à mesa, o livro é, por agora, o mais perto que muitos, inclusive eu, vamos chegar do Noma.

Noma: Time and Place in Nordic Cuisine, Phaidon, 368 páginas, www.amazon.com

13.6.11

#olhares cruzados: o artesão no souk de tunes


[©victor manuel lamosa de melo, todos os direitos reservados]

Foi divulgada, esta semana, a fotografia vencedora da competição internacional “Urban Photographer of the Year”, promovida por CB Richard Ellis (CBRE), uma empresa sedeada em Los Angeles, mas presente em Portugal desde 1988, líder mundial na prestação de serviços para o sector imobiliário.

Sou sincero. O anúncio, por si só, não teria desperto a minha atenção não fossem três coisas. A primeira tem a ver com o seu autor, o português Victor Manuel Lamosa de Melo, que conseguiu destacar-se entre fotógrafos amadores e profissionais, num total superior a dez mil inscritos, provenientes da Europa, do Médio Oriente e de África. A segunda diz respeito ao tema deste ano, Cities at Work (Cidades a Trabalhar), pelo que a foto eleita retrata um artesão de latoaria em pleno labor no souk (mercado) de Tunes, a capital tunisina.

Em prova estavam cenários tão diversos como Budapeste, Londres ou Palma de Maiorca, mas a imagem captada pelo fotógrafo amador português cativou o painel internacional de jurados por revelar “na perfeição a essência e os contrastes da vida urbana moderna”.

É provável que o facto de a cena se passar em Tunes, e não noutra cidade, tenha sido irrevelevante para o propósito desta iniciativa, mas, a ter sido, não deixa de ser uma coincidência muito feliz, tendo em conta o momento tão particular, e decisivo, que a Tunísia está a viver.

[Tunes, Abril de 2011 (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

A coincidência é tão maior, e por isso não me passou ao lado, pois regressei há pouco mais de um mês desse país magrebino e ainda há dias entreguei um texto sobre o mesmo para a edição de Julho da revista Volta ao Mundo. Não vou aqui antecipar, como é óbvio, o que escrevi na íntegra, mas, inspirado pela foto vencedora, partilharei de bom grado, até para despertar a curiosidade, a introdução à viagem que se seguiu, bem como algumas fotos que fiz nos vários locais por onde passei.

[Sidi Bou Said, Abril de 2011 (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

No momento em que escrevo estas linhas, ignoro o resultado das eleições do dia 24 de Junho, as primeiras a serem disputadas de forma livre desde que o regime ditatorial de Ben Ali foi derrubado, entre Dezembro de 2010 e Janeiro de 2011, na Tunísia por uma sucessão de acontecimentos que ficarão para a história como a “Revolução de Jasmim”.
Coincidência ou ironia, há mais do que apenas flores em comum entre a revolução portuguesa e a revolução tunisina. Os tunisinos, pelo menos, não se cansam de nos chamar a atenção para as coincidências, que preferem chamar de semelhanças, e tudo têm feito para aprender com os nossos erros e acertos enquanto dão os seus primeiros passos rumo à democracia.

[Oásis de montanha, Abril de 2011 (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Não é um processo fácil. Muito menos quando, mais do que apenas a sobrevivência politica, está em causa, tout court, a viabilidade económica do país. Sem outras maiores riquezas, a Tunísia vive, desde há muito, totalmente dependente dos milhões do turismo, mas os turistas, que, ainda no Verão passado, enchiam os voos charters e lotavam os hotéis tardam em regressar.
Nas últimas duas décadas, por motivos sobretudo profissionais, tive a oportunidade de visitar a Tunísia várias vezes e de acompanhar a evolução do seu potencial turístico. Nunca, como agora, a encontrei tão esvaziada de visitantes e isso enche-me de sentimentos antagónicos. E que se, por um lado, é quase um privilégio desfrutar do melhor do país sem as habituais hordas de turistas — há aliás quem defenda que se deve aproveitar o momento para repensar o modelo de turismo de massas seguido até agora —, por outro, não deixa de ser aflitivo testemunhar o desespero silencioso — porque são um povo orgulhoso e discreto — dos milhares de tunisinos que dependem desta indústria e vêem o seu ganha-pão em risco.

[Tozeur-Nefta, Abril de 2011 (©joão miguel simões, todos os direitos reservados)]

Sem as receitas do turismo, e por mais que na última cimeira dos G8 tenham acordado uma ajuda financeira às novas democracias emergentes no Magrebe e Médio Oriente, a Tunísia terá o seu futuro hipotecado.
Ciente de que a situação indefinida na Líbia, com quem partilha uma atribulada fronteira, pesa na opinião pública, os responsáveis pelo turismo, à semelhança do que se passa no Egipto, querem mostrar ao mundo que recuperaram a normalidade e que a presença de militares em certos pontos é discreta e apenas a necessária para garantir que as coisas continuam assim, calmas.
Os meios de comunicação desempenham um papel importante. Por isso mesmo, esta equipa da Volta ao Mundo viajou recentemente ao sul da Tunísia, um dos seus pontos mais turísticos pela proximidade ao deserto, e voltámos para contar o que vimos e vivemos. Não com a intenção de convencer quem quer que seja, porque não é essa a nossa missão, mas para relatar, como sempre fazemos, uma experiência de viagem que pode — e isso sim, garantimos — ser vivida por qualquer um. Basta estar disposto a dar o benefício da dúvida e ter, inclusive, a noção de que, em tempo de crise, a Tunísia apresenta neste momento, mais ainda do que antes, um custo-benefício difícil de bater. 
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